OPINIÃO: A recuperação do sector automóvel e a resiliência do mercado de usados

O efeito devastador da COVID-19 tem impactado transversalmente toda a cadeia de valor na indústria automóvel. Desde as fábricas até ao retalho, passando pelo negócio de peças até ao financiamento, todos tivemos de respirar fundo, suster a respiração e enfrentar com incerteza um período de grande restrição no exercício da atividade ou pura e simplesmente encerrar compulsivamente, colocando em causa a sustentabilidade económica do negócio.

O mês de Abril de 2020 ficará para a história do sector em Portugal. O mercado automóvel registou, neste mês, uma quebra histórica de 84,8% no registo de novas matrículas.

Esta crise tem vindo a resultar em perda de rendimento, grande incerteza em relação à situação laboral e até desemprego para muitos potenciais compradores de automóveis. O seu poder de compra vê-se assim reduzido e os níveis de confiança do consumidor descem significativamente e impactam negativamente as suas intenções de compra. Assim, mesmo após a abertura, a 4 de maio, o mercado de novos voltou a registar uma nova queda de 71,6% nesse mês.

E o futuro próximo não se antevê muito risonho, com a promessa de à crise sanitária se seguir uma recessão económica. Dependente da perspetiva e da fonte, chegam-nos à data números de queda do PIB de 6,8% a 11,8%.

Mercado de usados resiste e mostra procura por eletrificados

Apesar de tudo, o mercado de usados provou novamente ser mais resiliente e, após uma contração na ordem de 59% em Abril, recuperou em Maio. Na realidade, cresceu até quase 21% quando comparamos com o mês homólogo do ano anterior (gráfico 1).

A atual situação económica e as incertezas quanto ao futuro imediato pesarão na decisão de “apertar o cinto” e procurar um carro usado em vez de um novo, pode ser percecionada como uma decisão que apresenta um melhor custo-benefício. Esta tendência sai reforçada quando olhamos para a preferência por veículos com mais de três anos (gráfico 3).

O impacto dos preços de venda ao público de usados tem sido marginal até agora e cifra-se numa ligeira queda de 2,6% (gráfico 2), embora tal se tenha devido numa primeira fase ao choque no lado da procura e à constatação que mexer na variável preço não teria qualquer efeito na sua estimulação.

Um outro padrão que temos visto consolidar um pouco por toda a Europa é a ascensão da quota de mercado dos elétricos e eletrificados.

No mercado português, sem ser uma exceção, este segmento também se tem mostrado mais resistente ao impacto da pandemia com uma queda de venda de novos em Maio de apenas 6,5%. E é ainda expectável que esta tendência se acentue, não só porque ao tempo em que escrevo estas linhas não parece haver notícia de qualquer alteração em relação aos limites de 95 gramas de CO2 impostos pela Comissão Europeia, como ainda os pacotes de apoio à recuperação da indústria promovidos pelos diversos países tenderão a ser seletivos, privilegiando a continuação da transição energética. No mercado de usados este efeito também é sentido com uma fuga dos volumes de diesel para a gasolina e eletrificados e elétricos (gráfico 3). Na prática, este facto traduz também a crescente preferência por parte do consumidor.

Um incentivo para o negócio online

Por fim, esta crise veio expor as fragilidades de uma indústria que tem vindo, em larga medida, a adiar a digitalização do seu negócio e a mostrar que o consumidor não só está preparado, como ambiciona poder seguir um percurso de compra alternativo ao que até agora lhe foi imposto. Muitas marcas e retalhistas correram para o online e este acontecimento pode bem ser o catalisador e o início de uma mudança profunda no mundo da venda de automóveis novos e usados.

Uma estratégia multicanal assertiva apresentar-se-á como um seguro de vida contra potenciais novas vagas do surto e lançará bases sólidas para ir ao encontro de uma alteração acelerada do comportamento do consumidor.

Os dados utilizados na elaboração deste artigo têm por base a informação veiculada pela ACAP, no que aos veículos novos diz respeito, e pelos dados de veículos usados recolhidos e tratados pelo INDICATA.

O INDICATA analisa diariamente 9 milhões de anúncios de veículos usados em toda a Europa, facultando informação relativa à dinâmica do mercado incluindo oferta, procura, preços, stocks, etc., dando uma visão rigorosa do mercado de veículos usados em tempo real.

Fonte: Fleet Magazine

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